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GESTÃO
Publicado em: 15/12/2014
Por: Juliana Antunes
 
A sustentabilidade como um tema de segunda classe nas empresas
 
Intrigada com os recentes desdobramentos da operação Lava Jato, que culminaram com a prisão dos corruptores, me senti tentada a procurar o relatório de sustentabilidade da Camargo Corrêa, Engevix, Galvão Engenharia, IESA, Mendes Junior, Queiroz Galvão, OAS e UTC para ver o que era falado sobre corrupção. Porque, convenhamos, ler missão, visão e valores era piada pronta.
 
Pois bem, sanei a tentação e, confesso, fiquei chocada. Camargo Corrêa, IESA, Queiroz Galvão, Engevix, Galvão Engenharia, Mendes Junior, e UTC, nenhuma, eu disse NENHUMA delas possui relatório de sustentabilidade. A única que possui é a OAS e mesmo assim só publica de dois em dois anos.

E lá fui ver o relatório de sustentabilidade da OAS. O que tem disponível é o de 2011/2012. Quando fui no índice remissivo, até encontrei a menção aos indicadores SO2, SO3 e SO4, que tratam de corrupção. Achei estranho não ter a indicação das páginas correspondentes, mas como Deus inventou o control + F, digitei a palavra corrupção e, pasmem, ela é citada 4 vezes em todo relatório. O problema é que ela só é citada no índice remissivo. Ou seja, não tem absolutamente nada no relatório que trate do tema.

 
E aí não satisfeita com a situação, fui olhar o link relativo à sustentabilidade/responsabilidade social/ambiental da página dessas empresas. Coisa linda de Deus.
 
Camargo Corrêa: Tem um instituto lindo de morrer, mas sustentabilidade e transparência que é bom, necas. Minto, sustentabilidade é baseado em três pilares: agenda climática, gestão de carbono e prêmio de inovação sustentável. Juro, achava que isso era meio ambiente. Inclusive, achava que agenda climática e gestão de carbono era um consequência do outro.
 
IESA Oil & Gas: O link de gestão social se resume a apresentar os balanços sociais da empresa, sendo que a última edição do relatório data de 2011. O link QSMSRS, que eu chuto ter a ver com meio ambiente, ao clicar aparece uma página em branco. Na IESA Projetos & Equipamentos, no link de gestão social, o último balanço data de 2012 e o que eles chamam de Fundação Inepar é apenas o que nas empresas normalmente se convenciona a ser a área de benefícios. Ah, também tem link para o site de voluntariado deles. O link de sustentabilidade é nada mais que as ações ambientais da empresa, sendo que com exceção do programa de desperdício de alimentos (que dá números de 2011), o resto nada mais é que cumprimento de requisito legal.
 
Queiroz Galvão: Não apresenta nada de gestão, apenas projetos. Destaco o patrocínio à Orquestra Sinfônica Brasileira (isso é cultura, não RSE e, muito menos, sustentabilidade. Sem contar que é lei Rouanet; sai de graça pra eles!) e reforma do Parque Zoobotânico (que, curiosamente, está dentro de meio ambiente!)
 
Engevix: O link de responsabilidade socioambiental é subdividido em Pacto Global (que não significa absolutamente nada, já que, sem desmerecer o esforço da ONU, a participação é a coisa mais simplória e fácil de ser obtida. E longe de significar sustentabilidade), Instituto Engevix (projetos sociais da empresa), Ambiental (os destaques são a ISO 14001 e o Prêmio Fritz Muller ganho em 2007) e Cultural (projetos bancados pela lei Rouanet, ou seja, a empresa tem o nome estampado como patrocinador, mas o dinheiro é governamental).
 
Galvão Engenharia: Não existe, sequer um link no site que trate de sustentabilidade, responsabilidade social ou ambiental. O máximo que se consegue é um link para o código de ética dentro da seção de governança corporativa. No código de ética eles mencionam os pilares sociedade, comunidades e meio ambiente, tudo isso em uma única página e com letra grande. O documento tem 11 páginas e a palavra corrupção foi citada uma única vez, já nas considerações finais e no seguinte contexto: “O combate à pirataria, sonegação, fraude e corrupção são fundamentais para a formação de um ambiente de trabalho saudável e uma sociedade mais justa.” Ponto.
 
Mendes Junior: O conteúdo de responsabilidade social da empresa se resume a meia página, uma foto grande e fala dos três pilares que eu não entendi muito bem, mas são recursos financeiros (doação de dinheiro para as instituições), voluntariado e apoio a comunidades (ela diz que apoia as comunidades do seu entorno. Eu digo que ela apenas cumpre a lei).
 
UTC: De todas as empresas, acredito que é a que tem a disposição de informações mais próxima do que a realidade demanda. Gaba-se pelas certificações SA 8000 e ISO 26000. Falta alguém avisar que, do ponto de vista da sustentabilidade, essas certificações não são praticamente nada.  Dá bastante espaço para os projetos sociais. No link de QSMS, o espaço dado ao meio ambiente é pequeno e, mais uma vez, ressalta a posse da certificação ISO 14001.
 
Enfim, independente dos escândalos recentes, essas são empresas que trabalham diretamente com o setor de construção e/ou petróleo e gás. São dois setores altamente nocivos para a sustentabilidade de onde se espera uma atuação completamente diferente do que essas empresas apresentam para o seu público.
 
E se a falta de compromisso com a ética e transparência fica clara quando se vê executivos sendo presos por corrupção, essa pequena pesquisa que fiz só me dá a certeza de que eles (e a maioria das empresas) tratam sustentabilidade como algo de segunda classe.


Leia mais sobre o tema em http://www.sustentabilidadecorporativa.com/

 
 
Juliana Antunes
Consultora em sustentabilidade corporativa da AS Estratégia
Responsável pela área de inovação e desenvolvimento de produtos da sustentAPP
[email protected]
www.asestrategia.com.br
(21)2544-7493