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OHSAS 18000, GESTÃO
Publicado em: 05/11/2014
Por: Edson Gutierrez
 
A Síndrome do Corrimão
 

Nestas andanças pelos mais variados tipos de organizações, tenho a oportunidade de observar vários tipos de sistemas de gestão, uns mais robustos e outros nem tanto.

Infelizmente, tenho observado que muitas empresas sofrem de um mal que didaticamente chamo de “Síndrome do Corrimão”.

Imaginem o seguinte cenário:

Ao ser recepcionado, normalmente realizamos uma rápida visita as instalações para um reconhecimento dos processos a serem auditados. Ao nos confrontarmos com a menor das escadas a nossa frente, nosso acompanhante já dá o recado, “por favor, segurem no corrimão ao descer a escada”, fazendo uma breve observação ao redor, observo uma dezena de placas de sinalização (em português, inglês, espanhol, francês, mandarim, braile, etc) alertando para o risco da escada e a necessidade de segurar no corrimão.

Seguindo nossa caminhada, nos confrontamos com a segunda escada, em um deslize, esqueço de pôr a mão no corrimão, e nosso acompanhante rapidamente me repreende, alertando que se formos observados descendo uma escada sem segurar no corrimão, serão pontuados em seu programa de segurança comportamental. Rapidamente ponho a mão no corrimão, me desculpo e sigo a caminhada imaginando estar em um nova Dupont (benchmarking em segurança comportamental).

Para minha surpresa, ao adentar a área produtiva, observo uma série de equipamentos sem nenhum tipo de proteção, empilhadeiras quase que disputando rachas e exposição a agentes como ruído e calor acima do limite de tolerância, mas somente controlados pelo uso de EPIs (sem nenhuma ação voltada a controle na fonte conforme prevê a hierarquia de controles na legislação e na norma OHSAS 18001).

Sentando para auditar a documentação e requisitos legais, observo falhas estruturais no PPRA, PCMSO e ASOs. Falta um Programa de Proteção Respiratória, ou quando há, falta a realização de treinamentos, Fit Test e critério para troca de equipamentos. Semelhante situação ocorre com o Programa de Conservação Auditiva (PCA), Procedimento para preparação e atendimento a emergências e por aí afora.

Para quem não é da área de segurança do trabalho, todos os documentos são controles requeridos pela legislação.

Diante deste cenário, as vezes desesperador... não há como não pensar... “POIS É..., MAS O IMPORTANTE É PÔR A MÃO NO CORRIMÃO”.

Não me entendam mal, não quero menosprezar a importância deste controle, afinal de contas, é importante segurar no corrimão ao descer escadas, contudo acho curioso como algumas organizações valorizam a implementação de programas de segurança comportamental ou de excelência empresarial como (Five Star, 5S, entre outros), gastam valores exorbitantes e se vangloriam deste fato, mas quando pedimos uma avaliação ergonômica para atendimento a NR 17, dizem que a Direção não aprovou o pedido de compras, que há uma crise mundial na economia, ou ainda, já iniciam a auditoria reclamando que terão que gastar R$70 mil em um equipamento para adequação do atendimento aos requisitos da NR 12.

Com certeza, um sinal de um Sistema de Gestão de Saúde e Segurança do no Trabalho efetivo é quando se consegue trabalhar no comportamento das pessoas, mas não adianta trabalhar o comportamento sem primeiro oferecer uma estrutura adequada.

Para finalizar o cenário, ao auditar os registros de investigação de incidentes, de imediato observa-se a classificação de “ATO INSEGURO” e como ação corretiva o fato do profissional ser punido e reorientado (o que normalmente não é uma ação corretiva, pois não evita a recorrência do problema), e quando questionado o porquê, a resposta é que o profissional sabia que não podia colocar a mão na parte móvel do equipamento.

Ora, se o equipamento possui uma parte móvel, para atendimento aos requisitos legais, o profissional não poderia ter acesso a partes móveis, (primeiro ponto). Mas imaginemos que o profissional burlou um controle?  Ainda teríamos que fazer várias perguntas antes de concluir como ato inseguro. O risco havia sido identificado? O profissional foi treinado? A carga horária e o material estão adequados? O instrutor possui didática adequada? Houve uma análise de eficácia? Se sim, esta utilizou critérios robustos? Enfim, há de ser fazer um longo percurso antes de concluir que a causa do incidente foi o profissional.

Resumindo, vamos comer o filé mignon, mas se não vier acompanhado de um bom arroz e feijão, não sustenta.

Com a devida desculpa, aos que entenderam o contrário, o objetivo deste post não é ofender ou menosprezar o trabalho de ninguém, mas como disse acima, apenas uma forma didática de reflexão para o fato de que não podemos cuidar do “micro” e nos esquecer do “macro”, pois assim como há o corrimão para a segurança de trabalho, encontramos problemas semelhantes para a gestão da qualidade, meio ambiente e quaisquer outros sistemas de gestão.

 
 
Edson Gutierrez
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Engenheiro Ambiental
Auditor Líder e Consultor em Sistemas de Gestão - ISO 9001, ISO 14001, OHSAS 18001 e SA 8000
Coordenador do SiG Portal